terça-feira, 7 de abril de 2009

O Design e os Pássaros


Entre nós designers é muito comum reclamarmos da falta de reconhecimento da nossa atividade. Nos indignamos porque, pelo desconhecimento geral, acabamos por ter reduzidas as nossas oportunidades de trabalho. Isso sem falar da banalização do nome da profissão, que abre espaço para o aparecimento do hair designer, do designer de sobrancelhas, de bolos e tudo mais.

No entanto, além dos nossos interesses particulares, existe um sem fim de pessoas sendo prejudicadas com a falta de design, e não são prejuízos pouco relevantes, às vezes determinam o fracasso de uma vida. Tudo isso é muito sabido em nosso meio, mas dessa vez pude vivenciar esse problema. Daí o título inusitado do texto. Já explico.

Meu pai é passarinheiro, ou seja, ele cria, compra e vende pássaros (curiós especificamente). A criação de aves canoras é algo cultural, é uma atividade hobby muito comum no interior e nos arredores dos grandes centros. O passarinheiro tem amor pelos seus animais e aprecia verdadeiramente o canto dessas aves.

“Um bom exemplo é o do tricampeão de futebol Roberto Rivelino, que pelo amor declarado aos curiós ganhou o apelido de Curió das Laranjeiras, quando jogava no Fluminense, na década de 70”.
Trecho retirado do blog webichos.blogspot.com.

Assim, prevenido de opiniões simplistas e preconceituosas contra os criadores como: “eles tem é que se ferrar, passarinho é pra estar solto”, ou a clássica: “experimente viver numa gaiola para o resto da vida”. Prossigo.

Essas pessoas hoje tem, em sua maioria, mais de 35 anos, e boa parte não conhece computadores, nem tem acesso a internet. Muitos deles moram na zona rural e nunca sequer tocaram num teclado de computador.

Já o IBAMA, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, regula esses criadores através do SISPASS, Sistema de Cadastro de Criadores Amadoristas de Passeriformes, na internet. Os passarinheiros devem, por sua vez, fazer seus cadastros e registrarem seus animais, exclusivamente, através do site.

Aí mora o problema. Sabemos que construir um site para um público leigo é um problema complexo de design. Em frente ao computador qualquer usuário é impaciente e irritadiço, e agora imagine quem não tem esse costume.

“Se um site for difícil de usar, o usuário sai. Se a homepage não for clara o suficiente para mostrar o que a empresa oferece e o que é possível fazer, o usuário também sai. Se o usuário se perder, ele sai. Se demorar para carregar: sai sai e sai.”
Felipe Memória, autor do livro: “Design para a Internet: Projetando a Experiência Perfeita”

E como poucos conhecem a importância do design, é fácil concluir que um programador construiu o site do SISPASS. O resultado é óbvio: a interface técnica e fria, como um código de programação, afasta os criadores que tentam registrar os pássaros nascidos em sua criação. Eles não conseguem, por exemplo, fazer pedidos de anilhas, sem as quais é impossível provar que o pássaro é nascido em cativeiro.

E nesse ponto o site do SISPASS é bem claro:
“Em 1991, com a finalidade de se evitar ainda mais a captura de aves na natureza, foi publicada a Portaria 631, que autorizava às Federações somente a fabricação de anilhas fechadas, sendo que comercialização de filhotes sem essas anilhas seria considerada ilegal.”  


Quanto a pássaros apanhados em seu habitat, a lei de crimes contra o meio ambiente também é bem clara:
“Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida: Pena - detenção de seis meses a um ano, e multa.”

Agora imagine um pobre pai de família na zona rural que, um belo dia tem sua dúzia de passarinhos, que cuida com tanto cuidado, apreendidos por fiscais do Ibama. É multado em 6.000 reais e passa seis meses na prisão. É isso mesmo, para cada ave sem anilha a multa é de por volta de 500 reais. Agora imagine que ele tentou se legalizar a algum tempo e topou com essa falta de design.

Eu vivenciei essa situação e posso dizer: não são poucas as pessoas que tentam se legalizar e não conseguem. O número de indivíduos passíveis de prisão e multa por essa falta de design é muito grande. Em um fim de semana em que meu pai estava aqui comigo, registramos quatro criadores que não conseguiram se legalizar e pediram para que ele tentasse. Imagine quantos não são amigos do meu pai.

Não quero aqui culpar “o povo” ou sei lá quem por não conhecer o design. A culpa disso é mais nossa do que de qualquer um. Já na implantação, o design foi posto de costas para o Brasil, e assim continua sendo conduzido até hoje em muitos lugares.

“Desde o início das considerações sobre a implantação do design no Brasil, ficamos reféns de elaborações conceitualmente contrarias à idéia de um design associado à atividade empresarial, como sua parceira. Preferimos nos manter ao largo, em certa posição destacada, aparentemente sabedores daquilo que deveria ou não ser feito. Abdicamos assim, continuadamente, a um possível intercambio de idéias e pensamento, mantendo-nos distanciados, prontos, a qualquer momento, para iniciarmos profundas lamentações a respeito do quanto somos incompreendidos” 
João de Souza Leite, professor de design da Esdi e da PUC-Rio.

Enquanto insistirmos nessa postura descrita acima, não conseguiremos reconhecimento, ganharemos mal, seremos confundidos com outras classes de profissionais e deixaremos de ajudar pessoas que tanto precisam de nós.

sábado, 21 de março de 2009

VIK MAM RIO



Hoje fui ao MAM com amigos. Tivemos uma surpresa imensa. Nunca tínhamos visto fila pra entrar numa exposição, custei a acreditar, entramos na fila. Meia hora depois, estávamos dentro!

A muito tempo precisava ver VIK, tinha ouvido falar muito sobre esse cara, opiniões desde gênio até charlatão. Procurei entrar com o olhar bem aberto e os ouvidos mais ainda.

Era incrível ver aquela multidão dentro do museu. Nem em vernissage o MAM fica assim. Mas o melhor de tudo era poder ouvir os muitos comentários.

A primeira obra que vi, depois de seu rosto frente e verso com 2m de altura, foi um mapa-mundi composto por sucatas de computador num galpão, registrado por uma foto aérea. Aí ouvi: "Nossa! Imenso! Imagina o trabalho que deu pra fazer!"

Agora uma série de imagens feitas de pedacinhos de papel. Aí ouvi: "Caramba! Ele colou todos esses papeizinhos!? Incrível, parece uma foto!"

Depois, pinturas com calda de chocolate (com um texto do lado dizendo que o chocolate secava em um minuto). Aí ouvi: "Imagina você fazer esse desenho em um minuto? Muito difícil! Ele é bom mesmo."

Ouvi esse tipo de comentário em todas as obras. Todos que estavam ali, estavam celebrando a dificuldade, a paciência e a megalomania. Era Circo. VIK fazia o que ninguém conseguiria fazer, engolia espadas, cuspia fogo e tirava coelhos da cartola.

Minutos depois, algumas obras a frente, tive uma surpresa muito grande. Vi uma fotografia de cidade e uma singela nuvem, ao estilo desenho infantil, rabiscada no céu. Aquilo era muito bonito, tirei o chapéu. Aquela interferência na fotografia era de uma sutileza genial.

Perguntei à minha amiga se aquela nuvem foi feita com giz sobre a foto, como me pareceu. Ela respondeu: "Não, é fumaça mesmo!" Aí percebi que aquilo foi desenhado por uma espécie de esquadrilha da fumaça.

Fazia todo o sentido. Não há circo sem grandiosidade. Garatujar fotografias não leva centenas ao museu. Mas gastar uma grana preta com pilotos de caça, fazendo manobras arriscadas, leva!

Já decepcionado, topei com alguns vídeos. Eram making offs, e estavam ao lado de obras em que a megalomania não era facilmente percebida. Os vídeos mostravam caminhões despejando toneladas de matéria prima, num grande galpão, onde várias pessoas a arrumavam até gerar a imagem exposta ao lado.

A condição de Circo, pelo visto, não era um segredo. Aquilo tudo era muito claro pra todo mundo. Eu é que pensei que tinha entrado no MAM pra ver arte. Sinceramente, adorei a visita! Conheci um ilustrador genial, megalomaníaco e com orçamentos nunca antes vistos na história da ilustração. Mas só um ilustrador.

Só para esclarecer qualquer má interpretação: Quando digo ilustrador, não estou falando necessariamente de um desenhista, estou me referindo ao sujeito que gera imagem. O lápis está longe de ser a única ferramenta de um ilustrador.

E também, quando digo só um ilustrador, não coloco nossos queridos geradores de imagem numa categoria abaixo da do artista. São, simplesmente, diferentes.

Essa diferença é que vejo no trabalho do Vik Muniz. Ele não faz arte. Mas a questão é que ele mostra uma pretensão imensa de ser enquadrado como artista. O tempo todo vemos em sua obra releiturasde ícones da história da arte. Mas tudo meio postiço. A morte de Marat, Jangada da Medusa, Mona Lisa... nada disso convence.

Confesso, que seria meio incompetente para escrever sobre essa distinção, as fronteiras são sempre muito controversas. Até gente muito estudada se enrola nessas definições... Eu é que não vou me arriscar mais. Só digo o que sinto.

Mas como meu amigo colocou muito bem. É louvável que um sujeito traga tanta gente para uma exposição. Aquelas pessoas que se encantam com aquilo que estão vendo vão perdendo o medo de museu, o repúdio ao diferente.

É importante que alguém abra caminhos para a arte. Mesmo sendo ele só um excelente ilustrador megalomaníaco e pretensioso.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Lição de design com Gabriel García Marquez

Uma das maiores lições de design que eu já tive, me foi dada pelo nosso querido Gabo.
O parágrafo seguinte é a transcrição de uma de suas aulas na oficina de roteiros, ministrada na Escola Internacional de Cinema e Tv de San Antonio de los Baños, e está publicada no livro "Como contar um conto" da editora Casa Jorge.

"É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo o que ele joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo está no bom caminho. Para escrever, o escritor tem que estar convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe. É preciso ter critério, e coragem, é claro, para riscar o que deve ser riscado e para ouvir opiniões e refletir seriamente sobre elas."

É só trocar escritor por designer, texto por layout, Cervantes pelo designer que você mais adimira... e pronto!