Entre nós designers é muito comum reclamarmos da falta de reconhecimento da nossa atividade. Nos indignamos porque, pelo desconhecimento geral, acabamos por ter reduzidas as nossas oportunidades de trabalho. Isso sem falar da banalização do nome da profissão, que abre espaço para o aparecimento do hair designer, do designer de sobrancelhas, de bolos e tudo mais.
No entanto, além dos nossos interesses particulares, existe um sem fim de pessoas sendo prejudicadas com a falta de design, e não são prejuízos pouco relevantes, às vezes determinam o fracasso de uma vida. Tudo isso é muito sabido em nosso meio, mas dessa vez pude vivenciar esse problema. Daí o título inusitado do texto. Já explico.
Meu pai é passarinheiro, ou seja, ele cria, compra e vende pássaros (curiós especificamente). A criação de aves canoras é algo cultural, é uma atividade hobby muito comum no interior e nos arredores dos grandes centros. O passarinheiro tem amor pelos seus animais e aprecia verdadeiramente o canto dessas aves.
“Um bom exemplo é o do tricampeão de futebol Roberto Rivelino, que pelo amor declarado aos curiós ganhou o apelido de Curió das Laranjeiras, quando jogava no Fluminense, na década de 70”.
Trecho retirado do blog webichos.blogspot.com.

Assim, prevenido de opiniões simplistas e preconceituosas contra os criadores como: “eles tem é que se ferrar, passarinho é pra estar solto”, ou a clássica: “experimente viver numa gaiola para o resto da vida”. Prossigo.
Essas pessoas hoje tem, em sua maioria, mais de 35 anos, e boa parte não conhece computadores, nem tem acesso a internet. Muitos deles moram na zona rural e nunca sequer tocaram num teclado de computador.
Já o IBAMA, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, regula esses criadores através do SISPASS, Sistema de Cadastro de Criadores Amadoristas de Passeriformes, na internet. Os passarinheiros devem, por sua vez, fazer seus cadastros e registrarem seus animais, exclusivamente, através do site.
Aí mora o problema. Sabemos que construir um site para um público leigo é um problema complexo de design. Em frente ao computador qualquer usuário é impaciente e irritadiço, e agora imagine quem não tem esse costume.
“Se um site for difícil de usar, o usuário sai. Se a homepage não for clara o suficiente para mostrar o que a empresa oferece e o que é possível fazer, o usuário também sai. Se o usuário se perder, ele sai. Se demorar para carregar: sai sai e sai.”
Felipe Memória, autor do livro: “Design para a Internet: Projetando a Experiência Perfeita”
E como poucos conhecem a importância do design, é fácil concluir que um programador construiu o site do SISPASS. O resultado é óbvio: a interface técnica e fria, como um código de programação, afasta os criadores que tentam registrar os pássaros nascidos em sua criação. Eles não conseguem, por exemplo, fazer pedidos de anilhas, sem as quais é impossível provar que o pássaro é nascido em cativeiro.
E nesse ponto o site do SISPASS é bem claro:
“Em 1991, com a finalidade de se evitar ainda mais a captura de aves na natureza, foi publicada a Portaria 631, que autorizava às Federações somente a fabricação de anilhas fechadas, sendo que comercialização de filhotes sem essas anilhas seria considerada ilegal.”

Quanto a pássaros apanhados em seu habitat, a lei de crimes contra o meio ambiente também é bem clara:
“Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida: Pena - detenção de seis meses a um ano, e multa.”
Agora imagine um pobre pai de família na zona rural que, um belo dia tem sua dúzia de passarinhos, que cuida com tanto cuidado, apreendidos por fiscais do Ibama. É multado em 6.000 reais e passa seis meses na prisão. É isso mesmo, para cada ave sem anilha a multa é de por volta de 500 reais. Agora imagine que ele tentou se legalizar a algum tempo e topou com essa falta de design.
Eu vivenciei essa situação e posso dizer: não são poucas as pessoas que tentam se legalizar e não conseguem. O número de indivíduos passíveis de prisão e multa por essa falta de design é muito grande. Em um fim de semana em que meu pai estava aqui comigo, registramos quatro criadores que não conseguiram se legalizar e pediram para que ele tentasse. Imagine quantos não são amigos do meu pai.
Não quero aqui culpar “o povo” ou sei lá quem por não conhecer o design. A culpa disso é mais nossa do que de qualquer um. Já na implantação, o design foi posto de costas para o Brasil, e assim continua sendo conduzido até hoje em muitos lugares.
“Desde o início das considerações sobre a implantação do design no Brasil, ficamos reféns de elaborações conceitualmente contrarias à idéia de um design associado à atividade empresarial, como sua parceira. Preferimos nos manter ao largo, em certa posição destacada, aparentemente sabedores daquilo que deveria ou não ser feito. Abdicamos assim, continuadamente, a um possível intercambio de idéias e pensamento, mantendo-nos distanciados, prontos, a qualquer momento, para iniciarmos profundas lamentações a respeito do quanto somos incompreendidos”
João de Souza Leite, professor de design da Esdi e da PUC-Rio.

